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Joerly
Joerly
Precisamos falar sobre orçamentos (lll)

Bom tempo atrás um arquiteto provocou certa indignação de vidraceiros e outros profissionais ligados ao fornecimento do vidro plano ao postar em um blog de instituição do seu ramo de atividade críticas ao sistema de cálculo de preço adotado pelo setor vidreiro.


A metodologia analisada foi a do preço por metro quadrado e demonstra como problemas de precificação para grandes obras podem repetir-se também em pequena escala.


Para a sua análise, o arquiteto (cujo nome omito por razões que serão óbvias) publicou o desenho da imagem, aqui deitada para melhor se acomodar ao espaço existente neste blog.



Trata-se de uma porta de ferro para a qual orçou a colocação de vidros. O cálculo que fez foi este:


Medidas do caixilho: 2,10m X 1,60m

Área de vidro: 3,36m² (altura x largura do caixilho)

Preço médio do m2 de vidro: R$ 60,00

Custo estimado para a colocação: R$ 201,60 (R$ 60,00 x 3,36 m2)


Considerou ainda que esse seria um cálculo “benevolente” com o vidraceiro, já que não descontava a área dos montantes e das travessas internas.


Para sua revolta, no entanto, o vidraceiro chamado fez outra conta, em que considerou não uma unidade de vidro inteiriço de 2,10 X 1,60 metros, mas, sim, 60 vidros de 25 x 25 cm. A nova conta ficou assim:


Medidas do vidro: 25 X 25 cm

Quantidade de vidros: 60

Área de vidro: 3,75 m² (altura x largura do caixilho)

Preço médio do m2 de vidro: R$ 60,00

Custo estimado para a colocação: R$ 225,00 (R$ 60,00 x 3,75 m2)

ACRÉSCIMO: 11,61%


E isso porque o vidraceiro não aplicou valores adicionais às medidas por elas já serem múltiplas de cinco. Se não fossem, o “arredondamento” faria o preço subir ainda mais.


O arquiteto não aceitou a proposta e deu mais asas à sua revolta ao descobrir que o preço de custo do vidro para o vidraceiro era de R$ 30,00 por metro quadrado. Ou seja, o vidraceiro já estaria tendo 100% de lucro.


Em seguida repensou a conclusão, mas, calculadora à mão, estimou o preço de venda do vidraceiro utilizando fórmula matemática para incluir custos com materiais (considerando o valor de R$ 30,00 multiplicado por 3,36 m2), terceiros, mão de obra e encargos. Por seus novos cálculos chegou ao valor de R$ 207,00 para o pedido. Ou seja, 2,68% de aumento no preço que estimou ou 8% de redução no preço do vidraceiro.


INDIGNAÇÃO


Foi a vez de os vidraceiros se revoltarem, através de dezenas de comentários no blog onde os cálculos foram publicados. A começar pela pretensão do arquiteto em “pôr preço no serviço dos outros”. Entre as principais contestações aos cálculos que ele fez estão custos, riscos e valores não considerados, tais como:


- Tempo para fazer a medição

- Tempo maior para colocar 60 quadrados em vez de vidro único (estimado em 48 minutos/m2, para os quadrados)

- Riscos de quebra – durante o transporte e durante a colocação

- Gasolina

- Impostos e taxas referentes à manutenção da empresa (independentemente dos do serviço em si)

- Massa de colocação

- Solvente

- Riscos de cortes nos dedos, bastante comuns – além dos custos de tempo e de médico que esses cortes, às vezes profundos, podem acarretar.

- Sobras de vidro em tamanhos muito pequenos para serem utilizados, mas que têm custo.

- Valorização do profissional: dar o ponto na massa e aplicá-la com bom acabamento requer habilidade que só se conquista com anos de treino.


E tem mais, alguém lembra: onde está o lucro do vidraceiro? Afinal, ninguém trabalha só para pagar contas.


Contrastando a tudo isso, havia também quem apoiasse a opinião postada, lembrando que os riscos de cortes são inerentes à profissão e que, efetivamente, a prática do sobrepreço é comum no Brasil e que deve ser denunciada e combatida.


Também havia, para irritação dos demais comentaristas, quem tentava tirar proveito para oferecer os mesmos serviços a preços mais baixos. Do que, aliás, se extraem conclusões igualmente expressas nos comentários de que a livre concorrência é sempre o melhor remédio: orçar em pelo menos três fornecedores e sempre pelo serviço a ser realizado, não pelo metro quadrado do material.

 

OUTRO PONTO DE VISTA


Coincidentemente ou não o site da Viminas (viminas.com.br) trouxe à época o mesmo problema à tona, aparentemente colocando um ponto final nas discussões. A análise considera dois diferentes pedidos: o primeiro sendo o de um vidro único para o vão inteiro e o segundo com esse vão dividido em 60 peças.


Esta solução acrescenta um outro custo ao serviço, cobrado por medida linear: o de lapidação.


VIDRO ÚNICO:


- Normalmente este vidro deve ser temperado ou laminado, por questão de segurança. Estes processos exigem lapidação (polimento das bordas) como acabamento obrigatório, para que as bordas não cortem as mãos das pessoas no manuseio.

- Na lapidação o vidro perde pelo menos dois milímetros em cada lado, tanto na altura como na largura, ficando então na medida de 2104 x 1604.

  Assim:

Medidas do caixilho: 2,10m X 1,60m

Área de vidro: 3,36m² (altura x largura do caixilho)

Vidro com acréscimos para lapidação: 2.104 x 1.604 mm (3,375 m2)

Lapidação linear: 7,416 ml


60 PEÇAS:


- Também neste caso há perda com a lapidação do vidro de pelo menos dois milímetros em cada lado, tanto na altura como na largura.

  Observe que nos dois exemplos o vão é o mesmo, mas o resultado é bem diferente.


Medidas do vidro: 25 X 25 cm

Vidro com acréscimos para lapidação: 254 x 254 mm (3,871 m2)

Quantidade de vidros: 60

Lapidação linear: 61 ml


O novo resultado é 14,7 % maior na área e incríveis 8,22 vezes maior no custo da lapidação linear.


O texto da Viminas faz ainda uma ressalva final para lembrar que “nem foram computadas” as perdas referentes ao cálculo de aproveitamento da chapa, que também é afetado pelas novas medidas e é um dos custos indiretos mais altos do ramo vidreiro.


Na verdade, os 4mm adicionais na altura e na largura das peças não prejudicam o aproveitamento do chapa, conforme teste realizado no Corte Certo. Mesmo que em vez de uma única porta, fossem 12, para um edifício com esse número de andares, por exemplo, a diferença seria inexpressiva, com ambos os cálculos requerendo oito chapas e com sobra de retalhos muito parecida. Haveria, sim, uma diferença de 11,52 metros lineares para lapidação, segundo relatório do Corte Certo.

 

Na próxima publicação a última parte desta série.

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